Rossio

Num repente, a minha vida parou

 

Dei por mim deitado e imobilizado.

Sem nada esperar, vi-me num estado no qual nunca imaginara estar.

Tinha projetos, metas, contratos, um leque imenso de planos que desvaneciam, sem que ninguém me perguntasse.

Surgiu ao virar de uma curva, como se tudo tivesse terminado. 

Acabara de perder todo o meu valor.

 

Os meus desejos naquele momento

 

Queria ter completado a minha missão.

Queria abraçar os meus queridos avós.

Queria ter dito aquilo que não tive coragem nem tempo de dizer.

Queria ter cuidado melhor dos meus.

Queria ter olhado os meus pais olhos nos olhos.

Ter perdoado.

Ter cuidado mais de mim.

Ter amado melhor.

Ter celebrado com os meus amigos.

   

Onde andava eu?

Passava a vida a correr, num crescendo de stress e cansaço.

Temia perder o prestígio. Por isso, fazia mais do que podia.

Esforçava-me por um futuro tranquilo, dando tudo aos meus.

Mergulhava em pensamentos, medos e ilusões.

Fugia da dor que me magoava.

Controlava a vida, dormia pouco e mal, e a custo sorria.

Competia comigo e com os outros, sobrevivendo sem saber.

Multiplicava escapes e viagens que me dessem prazer. 

 

Relogio

A vida parada num silêncio ensurdecedor

 

Não aguentava aquela dor.

Sentia uma ânsia imensa de voltar ao normal de sempre.

Eram anos e anos debaixo daquele ritmo e, agora, ali parado.

Uma angústia de sentir-me inutilmente só.

Confinado ao meu espaço, sem nada conseguir fazer.

Revoltado por ali ter chegado.

Insensível e incapaz de ouvir quem apenas precisasse de ser escutado.

Assustado mais do que nunca com o futuro.

 

As lágrimas salvaram-me a vida

 

Naquele pesadelo inesperado que me habitava, consegui, ainda assim, olhar o raio de luz que atravessava a janela de minha casa.

Contemplei nela as minhas filhas 

sentadas,

ler

A descansar,

A respirar,

A aprender,

A partilhar,

Enquanto me entorpecia por dentro.

A luz aproximou-se de mim com a serenidade das minhas filhas,

Devolvendo-me um raio de esperança e de paz.

Tinha uma vontade desmedida de as abraçar.

 

Levantei-me

 

Dei uns passos, com dificuldade, em direção às minhas filhas e à mãe, e abracei-as com intensidade.

Fiz a cama, sentei-me no sofá.

Deixei os passos do pensar e comecei em passos a dançar.

Tinha uma lista de sonhos no coração que queria viver.

Comecei a priorizá-los.

Enquanto equilibrava a minha vida, as minhas prioridades, as minhas ações.

 vida 

Quanto me custou esta mudança

Eram hábitos passados.

Eram dependências havidas.

Eram convicções aparentemente clarividentes e sedutoras.

Eram memórias e dores profundas que teimava em não querer cuidar.

Passo a passo naquela dança de luz, com muito amor, como a daquele abraço,

Permiti-me ser como queria ser.

Cuidando de mim e cuidando dos outros.

 

Afinal somos seres que nos adaptamos

 

Fui-me reequilibrando e sentido melhor

Ao atender às minhas necessidades fundamentais,

Ao ligar-me aos outros, amando-os e sendo amado,

Sendo reconhecido pelos outros pelo que sou, pela minha missão.

Tudo ganhava renovado sentido, mesmo no silêncio do tempo.

Realizava sonhos num instante e todos os dias.

Emergiam significados profundos em vários tons de cor,

Mesmo no limite do meu espaço.

 

A minha vida mudou naquele instante.

 

Era a transparência,

A partilha,

A celebração festiva,

O cuidado,

A sabedoria,

A corresponsabilidade,

A dedicação,

O amor à vida,

A humildade,

A solidariedade,

A humanidade.

 

Tinha uma história maravilhosa para partilhar.

 

Afinal, tinha tanto para investir, sonhos por realizar e expandir.

Tinha um mundo inteiro para humanizar.

Tinha um propósito de vida.

Tinha motivação para resolver os meus problemas e desafios.

Tinha muito para viver.

Estava determinado em recomeçar,

Em agarrar a vida.

Sentia-me livre, por dentro e por fora, naquele instante que me salvou.

Estava realmente de volta e, de facto, mais do que nunca, vivo e a viver.

 

Emergiam significados profundos em vários tons de cor. Mesmo no limite do meu espaço.

About the Author

Bernardo Corrêa d'Almeida

Bernardo Corrêa d'Almeida

O meu nome é Bernardo Corrêa d’Almeida e sou Psicólogo. Tenho uma grande paixão pelo que faço e isso traduz-se em presença, cuidado, dedicação e amor às pessoas que me consultam. Terei o maior gosto em trabalhar consigo.
Profissionalmente: Psicólogo Clínico, Professor, Investigador e Escritor. Membro Efectivo da Ordem dos Psicólogos Portugueses com a Cédula Profissional nº 24538. Membro da Sociedade Portuguesa de Terapia Focada nas Emoções. Psicólogo Clínico na Santa Casa da Misericórdia do Porto.

3 Comments

  1. […] reconhecer e acolher a nossa vulnerabilidade como seres […]

  2. […] são as variáveis essenciais na transformação do luto num processo de renovação de vida. […]

  3. […] Perante uma situação de sofrimento ou mesmo na ausência de sofrimento, sempre que as nossas necessidades fundamentais são acedidas sentimo-nos melhor e mais aptos para nos desenvolvermos. […]

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