Ansiedade

Ansiedade: doença do século.

Cerca de 264 milhões de pessoas (264.000.000) sofrem de ansiedade no mundo – OMS.

Falamos da ansiedade que perturba o normal desempenho das pessoas.

Não nos referimos à ansiedade de realização, aquela que promove, de um modo saudável, um melhor desempenho numa situação concreta e pontual.

Como se define a ansiedade?

É uma resposta emocional que protege a dor que uma determinada emoção proporciona.

Em poucas palavras, a ansiedade é uma resposta de autoproteção que se torna desajustada.

Expressa-se num emergente sentir de alerta e, por isso, numa crescente dificuldade de regulação emocional.

Apresentamos dois exemplos:

a) Perda de alguém que amamos

Sentimos uma tristeza profunda.

Se a tristeza não for atendida – se não encontrarmos suporte, compreensão nem significado – e, por isso, se não a tristeza não for expressa,

podemos assumir uma resposta de evitamento, de medo, de autoproteção para evitar aceder à dor da perda inicial, a qual permanece sem ser devidamente cuidada.

b) Falhanço numa determinada ocasião

Podemos sentir vergonha.

Se esta emoção não for atendida,  podemos adotar uma resposta de evitamento, 

que se pode expressar em não querermos voltar a enfrentar uma situação semelhante 

ou em nos prepararmos na perfeição para a controlar e evitar novo falhanço.

Em ambos os exemplos anteriores, estamos diante de uma espiral crescente de ansiedade cada vez mais intensa, pois além de não se cuidar da dor, ao mesmo tempo, aumenta-se o estado de alerta e a incapacidade de regular esse estado.

Fantasia  

Como se manifesta a ansiedade?

Sentimentos de preocupação, insegurança, tensão, alarme, que podem aumentar a pressão arterial, frequência cardíaca, sudação, secura da boca, tremores e tonturas.

Pensamentos automáticos repetitivos e distorcidos (‘nunca sou suficientemente bom’).

Crenças não adaptativas (‘tenho que acabar definitivamente com a minha ansiedade).

Padrões disfuncionais que podem ser conscientes ou inconscientes (‘sinto-me abandonado’).

O que pode estar na base da ansiedade?

I – Uma determinada experiência de vida provoca uma dor emocional;

II – se essa dor for silenciada, negligenciada ou não cuidada;

III – pode gerar uma resposta de autoproteção perante o sofrimento que provoca.

O que se pode traduzir num sentir ansioso.

A ansiedade é uma resposta emocional:

Que não concede atenção e consolo à tristeza.

Que não apoia nem protege face ao medo.

Que não aceita nem compreende a vergonha.

Procura sim evitar o sofrimento desses estados emocionais,

Negando-os,

Negligenciando-os,

Desvalorizando-os,

Lutando com esses.

E, assim, por não se atender adaptativamente a esses sentimentos,

promove-se uma espiral de autoproteção, auto-preocupação: ansiedade.

A ansiedade é uma alternativa emocional

Construída na base de estados de vulnerabilidade e de emoções desvalorizadas e, por isso, é um emergente sentir de assustado.

Este pode ser reforçado por repetidas experiências emocionais não atendidas.

Estas vivências, com a sua dor emocional respetiva,

por não serem atendidas naquilo que são,

podem gerar padrões de sentir caracterizados por uma vulnerabilidade desamparada e por um sentimento de se achar indigno,

primeiro porque não se experimenta suporte

e, depois, por se julgar que não se é digno de o merecer.

vulnerável

Na base frágil de padrões de vulnerabilidade e de indignidade

Tendem a ser consolidados pensamentos de autoprotecção alarmantes que, naturalmente, anulam uma adequada proteção.

Tudo isto, para sobreviver à dor evitada inicialmente.

Este processo de sentir ansioso pode comprometer a vivência emocional e a construção identitária saudáveis,

pois a pessoa passa a estar focada em processos ansiosos,

internalizando estratégias dolorosas e contraditórias de regulação emocional para evitar a dor:

silêncio/barulho;

desistência/luta;

não validação/necessidade;

culpar-se e achar-se indigno de amor / reclamar por proteção e amor.

Daí que num estado de ansiedade se possa sentir um sofrimento indiferenciado no limiar da consciência e uma incapacidade em distinguir sugestões do contexto e deve tranquilizar (Watson).

Como sair da espiral da ansiedade?

  • Investir na auto-bondade: respeito, carinho e atenção plena para consigo mesmo (quanto ao que se pensa, diz, sente, faz).
  • Motivar-se para um estado consciente e benévolo para com pensamentos, crenças e padrões de autoproteção dolorosos e contraditórios.
  • Identificar e perdoar o que pudesse ter contribuído para organizações vulneráveis e de desamparo (ex.: situações de injustiça, de maltratos, de abandono).
  • Valorizar uma alimentação saudável, contextos harmoniosos, exercícios de apaziguamento, prática da atenção plena e técnicas de resolução de problemas.
  • Aceder ao cerne da dor evitada: tristeza da perda, vergonha de falhar, medo da ameaça.
  • Promover uma atitude de aceitação e de bondade em vista da transformação de emoções dolorosas por meio do suporte, da compreensão e do significado.
  • Consolidar a identidade em ordem a relações de maior conexão e liberdade.

Qual o processo de mudança?

Quando alguém tem consciência de uma voz interna alarmante,

pode estar de saída do processo ansioso desregulado.

Pois, progressivamente, pode focar-se, não no processo ansioso (autoproteção para evitar a dor), mas sim no que sente,

nas suas tendências de ação não adaptavas, nas eventuais histórias que importa perdoar e dar significado.

Assim vai transformando emoções não adaptativas em emoções adaptavas.

Pois, com amor, acede e transforma o cerne da dor (tristeza, vergonha, medo)

e, ao mesmo tempo, aumenta a confiança e a capacidade de regular e expressar as suas emoções, incluindo a dor que antes evitara.

No fundo, a ansiedade pode ser uma tentativa honesta de cobrir uma ferida sem dela cuidar propriamente. Quando a passamos cuidar, estamos de saída de um ciclo de ansiedade.

saída

About the Author

Bernardo Corrêa d'Almeida

Bernardo Corrêa d'Almeida

O meu nome é Bernardo Corrêa d’Almeida e sou Psicólogo. Tenho uma grande paixão pelo que faço e isso traduz-se em presença, cuidado, dedicação e amor às pessoas que me consultam. Terei o maior gosto em trabalhar consigo.
Profissionalmente: Psicólogo Clínico, Professor, Investigador e Escritor. Membro Efectivo da Ordem dos Psicólogos Portugueses com a Cédula Profissional nº 24538. Membro da Sociedade Portuguesa de Terapia Focada nas Emoções. Psicólogo Clínico na Santa Casa da Misericórdia do Porto.

1 Comment

  1. Avatar Maria Joana Rondão

    Dr. Bernardo, os meus PARABÉNS pela publicação do seu texto sobre: “Ansiedade”
    Sinceramente, que me revejo em algumas situações, por si enunciadas, pensando eu, que essas situações serão fáceis de ultrapassar e que até associava a pequenas preocupações, que não chegariam ao limite de se diagnosticar como : Ansiedade.
    Situação esta mais gravosa e que requer até tomada de medicação e não só, isto é, acompanhamento psicológico. Muito obrigada pela divulgação do seu trabalho de investigação.

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