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Os nossos sentimentos

Brotam no diálogo de duas principais dinâmicas:

  • as nossas memórias emocionais, que são ativadas automaticamente por estímulos relevantes (inputs produzem outputs como experiências);
  • e os respetivos processos cognitivos automáticos, que geram avaliações e dão origem à consciência dos sentimentos.

Os sentimentos

Acontecem assim de um modo dialógico entre a capacidade inata de sentirmos e o poder de refletirmos nessa capacidade.

A interligação destas duas realidades entre si ao longo do tempo 

e dessas com os outros, com o ambiente, onde se incluem dados culturais, aprendizagens e experiências, traduzem o que sentimos.

Assim resulta uma história contada que nos permite, em cada momento, uma síntese significativa do que somos, expressando uma organização da experiência que fornece o sentimento do que acontece (Greenberg).

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Nesta dinâmica de existir

É essencial permitirmo-nos experienciar os nossos sentimentos.

É essencial aceitarmos e encontrarmos sentido nas nossas experiências.

Mantermos relacionamentos saudáveis, que nos permitam a livre construção da nossa identidade.

É essencial tomarmos decisões de um modo autónomo e em liberdade.

Ponderarmos se essas decisões estão alinhadas com o nosso sentido e propósito de vida.

É essencial que esses sentimentos permitam o despertar constante da nossa vocação para o crescimento emocional e humano.

Estamos a falar das principais variáveis do bem-estar psicológico (Ryff).

Na realidade, aquilo que somos vai adquirindo tanto mais coerência quanto melhor nos recriamos e nos adaptamos às realidades. A situação emocional saudável integra coerentemente as diferentes dimensões do existir.

Os sentimentos dolorosos

Podem resultar de processos de autocrítica (“eu não sou capaz”), 

de autonegligência (“não mereço esse cuidado”), 

de autointerrupção (“nem vale a pena tentar”)

e até de autocoerção (“agora tenho que o conseguir a todo o custo”).

Estes processos podem ter na base experiências passadas que interiorizámos e que persistem de um modo inconsciente.

Podemos também estar a repetir memórias emocionais perturbadoras e dominadoras fruto de situações relacionais não resolvidas como perdas, abusos, rejeições, injustiças, negligências.

Mas, em cada momento, tomando consciência e cuidando dessas memórias podemos corrigir padrões problemáticos, enriquecendo assim o nosso património emocional.

Podemos despertar e alimentar sentimentos aprazíveis.

Podemos aceitar e amar os nossos sentimentos mais dolorosos e assim transformá-los em compreensão, em carinho, em perdão.

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Como valorizar os sentimentos?

Tomar consciência dos nossos sentimentos, permitindo-nos senti-los na sua plenitude.

Expressar sentimentos, ultrapassando o evitamento e o reprimir dos mesmos;

Regular o que sentimos, promovendo contextos saudáveis, tolerando o sofrimento, identificando aquilo que nos possa desestabilizar, olhando os nossos próprios sentimentos;

Dar sentido ao que sentimos promovendo narrativas positivas;

Transformar sentimentos não adaptativos por outros adaptativos (Greenberg).

Em poucas palavras, temos ao nosso alcance a contínua oportunidade de não apenas nos amarmos melhor e aos outros como, ao mesmo tempo, de crescermos emocionalmente através desse processo.

A essência do bem-estar e desenvolvimento

Perante uma situação de sofrimento ou mesmo na ausência de sofrimento, sempre que as nossas necessidades fundamentais são acedidas sentimo-nos melhor e mais aptos para nos desenvolvermos.

Estamos a falar da nossa necessidade de estarmos em relação connosco e com os outros de um modo autêntico.

Quando estas necessidades essenciais são ativadas acedemos à nossa essência, às nossas emoções adaptativas, aos nossos sentimentos genuínos, os quais não nos deveriam permitir comportamentos indignos, desrespeitosos nem injustos para connosco e para com os outros (OPP e APA).

O nosso melhor consegue-se

Ao acedermos à nossa essência.

Na medida em que valorizamos as nossas necessidades e emoções fundamentais através do desenvolvimento de afetos verdadeiros.

Da perceção e da consideração das nossas sensações corporais.

Da recordação e da valorização da nossa história de vida e de episódios passados.

Do foco na experiência em si livre de crenças, preconceitos e validações alheias.

Da regulação emocional (meditação, apaziguamento, respiração).

Da facilitação de novas experiências emocionais que promovam o nosso desenvolvimento e bem-estar.

Uma memória emocional de medo, por exemplo, fruto de uma situação de abuso, pode ser transformada pela ativação da raiva assertiva face à ofensa, motivando assim a aproximação ao invés da retirada, gerando uma nova sensação de confiança e abrindo caminho para o perdão.

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About the Author

Bernardo Corrêa d'Almeida

Bernardo Corrêa d'Almeida

O meu nome é Bernardo Corrêa d’Almeida e sou Psicólogo. Tenho uma grande paixão pelo que faço e isso traduz-se em presença, cuidado, dedicação e amor às pessoas que me consultam. Terei o maior gosto em trabalhar consigo.
Profissionalmente: Psicólogo Clínico, Professor, Investigador e Escritor. Membro Efectivo da Ordem dos Psicólogos Portugueses com a Cédula Profissional nº 24538. Membro da Sociedade Portuguesa de Terapia Focada nas Emoções. Psicólogo Clínico na Santa Casa da Misericórdia do Porto.

4 Comments

  1. Avatar Maria José Carmo e Cunha

    Muito interessante, ainda que haja situações só “curaveis” a outros níveis.
    Obrigado MJ

  2. Avatar Paula Paraty

    Concordo com aquilo que diz, mas quando estamos mesmo em baixo, auto estima, falta de sorriso, por vezes, dá mos connosco a pensar em coisas que nem deviam passar pela nossa cabeça, mas os pensamentos estão lá.

  3. Depressão e o fim da dor
    Um sentimento que nos leva ao silêncio, sem vontade de ir trabalhar, crises de choro, pensamentos negativos que vêm do nada, auto estima sempre em baixo, e as dores de cabeça que não param, muitas noites sem dormir, e depois tudo vem à cabeça, uma tristeza do tamanho do mundo. Sr. Dr. Costumo ler aquilo que escreve. E um ainda vou conseguir olhar as coisas de forma diferente.

  4. […] e permite, em cada momento, uma síntese tácita, dialética e significativa de um conjunto de esquemas emocionais numa de muitas organizações do que […]

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