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Birras, amuos e crises

As crianças têm birras.

Jovens e adolescentes têm amuos.

Adultos têm crises.

Será mesmo assim? Fará sentido esta divisão?

Não assistimos regularmente a estes comportamentos independentemente das faixas etárias?

Algumas atitudes que favorecem birras, amuos e crises:

I – Desconsiderar o outro

Olhando o outro segundo os nossos juízos.

Desvalorizando as suas qualidades.

Rotulando-o pelas suas fragilidades.

Desacreditando o seu valor intrínseco.

Ignorando as dificuldades do outro.

II – Não cuidar de nós

Descurando as nossas necessidades fundamentais.

Não atendendo ao nosso valor, potencial e unicidade.

Não se permitindo amar e ser amado.

Fechando-nos em nós sem nos abrirmos a evoluir.

III – Não disciplinar

Não envolvendo os outros na constituição de regras em vista do bem comum.

Idealizando cenários de vida sem regras e sem limites, alimentando birras.

Escondendo-se no isolamento e evitando a resolução de problemas.

Permitindo o sucessivo desrespeito das normas.

Descomprometendo-se pelo desenvolvimento pessoal e social.

IV – Não atender aos sinais nem prevenir

Vivendo desatento a si e aos outros.

Agindo apenas em último recurso e com medidas drásticas.

Desinvestindo no elogio sincero,

no diálogo motivador

e na aprendizagem com sentido.

Não incrementando o diálogo nem a escuta ativa.

amuo

V – Não propiciar contextos seguros

Investindo sobretudo nas regras e na rigidez.

Não promovendo o juízo crítico nem as oportunidades de crescimento.

Educando na base do medo e da severidade.

Não valorizando os afectos genuínos.

Distanciando-se emocionalmente de si e dos outros.

VI – Não promover a regulação emocional

Não sentindo nem criando condições para que os outros expressem o que sentem.

Não dando atenção ao corpo e às sensações.

Deixando-se ir ao sabor dos acontecimentos, dos pensamentos e dos sentimentos, estimulando padrões de birras.

Acreditando que as coisas mudam por si sem que nada se altere.

Correndo de um lado para o outro sem

Atender

Reconhecer

Identificar

Nomear

Refletir

Transformar

O que possa sentir de modo a ser o melhor de si em cada momento.

VII – Não procurar ser autêntico nem humilde

Ordenando e exigindo aos outros sem se comprometer do mesmo modo.

Desconsiderando a importância da autenticidade de vida.

Educando sobretudo pelo discurso, pelas regras, pelos ideais e não pelo exemplo.

Não transmitindo atenção, compreensão nem serenidade.

Não se permitindo errar a si nem aos outros.

VIII – Não fomentar a paciência, o diálogo e a atenção

Trazendo para casa os problemas quotidianos e levando-os para fora de casa.

Imaginando os piores cenários e alimentando-os.

Não cuidando de si e do que se sente.

Não promovendo o seu bem-estar e o dos outros.

Não sendo compassivo para consigo e para com os outros.

IX – Permitir-se entrar em escaladas de discordância

Entrando em lutas de argumentos e de poder.

Aumentando o tom de voz ao jeito das maiores birras.

Perdendo a regulação emocional e a lucidez.

Hiperbolizando os problemas sem os resolver, contribuindo para que se desenvolvam hábitos de birras.

Acreditando na oposição como meio de construção social.

crises  

X – Personalizar os momentos problemáticos

Sentindo-os como ofensas e avaliando-os como ataques pessoais.

Interiorizando-os como falhanços próprios.

Absorvendo-os sem mudar de atitude.

Guardando ressentimento.

Desvalorizando o perdão e o sentido positivo e construtivo das experiências.

XI – Ser funcional sem empatizar

Atendendo às pessoas e às suas circunstâncias mecanicamente.

Valorizando os resultados mais do que as aprendizagens.

Coisificando a vida, entrando em birras com ela.

Não semeando em si e à sua volta valores humanos.

Assumindo uma atitude passiva perante a vida.

XII – Não brincar nem cuidar

Não olhando ao lado mais belo e significativo da vida.

Perdendo o sentido de humor.

Mergulhando em ciclos negativos e desgastantes.

Culpando-se e aos outros pelas suas dificuldades.

Crendo que as coisas mudam por decreto e não pela mudança de atitudes e de comportamentos.

XIII – Não envolver os outros nos seus processos de autonomia

Desconsiderando o contributo e a responsabilidade dos outros.

Assumindo papeis paternalistas e assistencialistas.

Ignorando a importância da motivação e do sentido de transcendência nos processos de crescimento pessoal e social.

Alimentando padrões de crescimento irrealistas, perfecionistas, rápidos e ambivalentes.

XIV – Não fomentar a socialização nem a partilha

Não se abrindo ao diálogo e à interação social.

Desconsiderando os seus limites e o dos outros.

Impondo as suas regras e conceitos mesmo que seja por meio de birras.

Fechando-se no seu mundo e nos seus pensamentos.

Não promovendo ambientes que permitam o seu desenvolvimento e o dos outros.

A vida é um processo dinâmico de crescimento pessoal e social. As formas de expressar comportamentos desadequados são várias independentemente das idades. Importa que essas sejam encaradas com compreensão e humildade de modo a que permitam a consciência de si e do outro.

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About the Author

Bernardo Corrêa d'Almeida

Bernardo Corrêa d'Almeida

O meu nome é Bernardo Corrêa d’Almeida e sou Psicólogo. Tenho uma grande paixão pelo que faço e isso traduz-se em presença, cuidado, dedicação e amor às pessoas que me consultam. Terei o maior gosto em trabalhar consigo.
Profissionalmente: Psicólogo Clínico, Professor, Investigador e Escritor. Membro Efectivo da Ordem dos Psicólogos Portugueses com a Cédula Profissional nº 24538. Membro da Sociedade Portuguesa de Terapia Focada nas Emoções. Psicólogo Clínico na Santa Casa da Misericórdia do Porto.

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